14 de nov de 2014

AS VIRTUDES CARDEAIS – SÃO JOÃO PAULO II.

Província Santa Rita de Cássia
Brasil



Este artigo reúne os textos das quatro primeiras audiências públicas do Papa João Paulo II, nas quais, para cumprir a vontade de seu predecessor, o Santo Padre trata das virtudes cardeais: a prudência, a justiça, a fortaleza e a temperança. Estas virtudes, junto com as três virtudes teologais, são como que os pilares da vida cristã.

A VIRTUDE DA PRUDÊNCIA (25 de outubro de 1978)
Na linha do Papa Luciani
1. Ninguém poderia imaginar que a audiência geral do Santo Padre João Paulo I da quarta-feira, 27 de setembro, seria a última. A sua morte depois de trinta e três dias de pontificado deixou o mundo surpreso e invadido por um profundo pesar. Ele, que suscitou uma alegria tão grande na Igreja e inundou os corações dos homens com uma enorme esperança, consumou e levou a cabo a sua missão num tempo muito breve. Na sua morte fizeram-se realidade as palavras tão repetidas no Evangelho: Estai também vós preparados, porque o Filho do Homem virá na hora em que menos pensardes (Mt 24, 44). João Paulo I estava sempre vigilante e a chamada do Senhor não o apanhou de surpresa. Respondeu-lhe com a mesma alegria e emoção com que havia aceitado a eleição à Sé de São Pedro no dia 26 de agosto.

Na plenitude da caridade
2. Hoje, passadas quatro semanas desde aquela audiência, pela primeira vez apresenta-se diante de vós João Paulo II, que deseja saudar-vos e falar-vos. Propomo-nos dar continuidade aos temas já iniciados por João Paulo I. Recordemos que ele havia falado das três virtudes teologais: a fé, a esperança e a caridade, concluindo com a caridade. Esta virtude, que foi o seu último ensinamento, é aqui na terra a maior das virtudes, como nos ensina São Paulo (cfr. 1 Cor 13, 13); é a virtude que vai além da vida e da morte. Pois quando termina o tempo da fé e da esperança, o amor permanece. João Paulo I já passou pelo tempo da fé, da esperança e da caridade – que se manifestou tão magnificamente nesta terra e cuja plenitude só será revelada na eternidade.

O homem prudente
3. Cabe-nos hoje falar de outra virtude, porque vi nos apontamentos do falecido Pontífice que não tinha só a intenção de falar das três virtudes teologais, mas também das quatro virtudes chamadas cardeais. João Paulo I queria falar das “sete lâmpadas” da vida cristã, como as chamava o Papa João XXIII.
Pois bem, quero seguir hoje o programa traçado pelo Papa desaparecido e falar brevemente da virtude da prudência. Devemos profundo reconhecimento e gratidão aos antigos, que nos já nos disseram muitas coisas sobre essa virtude. Até certo ponto, ensinaram-nos que o valor de um homem deve ser medido pelo metro do bem moral quer realiza na sua vida.

Isto é precisamente o que situa no primeiro lugar a virtude da prudência. O homem prudente, que se esforça por realizar tudo aquilo que é verdadeiramente bom, esforça-se por medir tudo – toda situação e todo o seu agir – pelo metro do bem moral. Por isso, ao contrário do que freqüentemente se pensa, prudente não é aquele que sabe “virar-se bem” na vida e tirar dela o maior proveito, mas aquele que consegue edificar toda sua vida segundo a voz da consciência reta e as exigências da justa moral.
Assim, a prudência vem a ser a chave para a realização da tarefa fundamental que cada um de nós recebeu de Deus: a perfeição do próprio homem. Deus deu a cada um de nós a sua humanidade. É necessário que respondamos como se deve a essa tarefa.

O cristão prudente
4. O cristão, porém, tem o direito e o dever de contemplar a virtude da prudência também sob outra perspectiva. Esta virtude é no homem como que a imagem e a semelhança da providência do próprio Deus dentro das dimensões do homem concreto. Porque o homem – sabemo-lo pelo livro do Gênesis – foi criado à imagem e semelhança de Deus. E Deus realiza o seu plano na história da criação e, sobretudo, na história da humanidade.
O objetivo deste desígnio é o bem último do universo, como ensina São Tomás. E esse mesmo desígnio converte-se, no âmbito da história da humanidade, muito simplesmente no desígnio da salvação, que nos abarca a todos nós. No ponto central da sua realização, encontra-se Jesus Cristo, no qual se manifestaram o amor eterno e a solicitude do próprio Deus, do Pai, pela salvação do homem. Esta é ao mesmo tempo a manifestação plena da providência divina.
Por conseguinte, o homem, que é a imagem de Deus, deve ser – como novamente nos ensina São Tomás –, em certo sentido, a providência. Mas na medida da sua própria vida. O homem pode tomar parte nesta grande caminhada de todas as criaturas para o objetivo, que é o bem da criação. E, expressando-nos mais na linguagem da fé, o homem deve tomar parte neste desígnio divino da salvação, deve caminhar para a salvação, e ajudar os outros a salvar-se. Ajudando os outros, salva-se a si próprio.

Exame de consciência
5. Peço aos que me escutam que repensem agora a sua vida sob esta luz. Sou prudente? Vivo conseqüente e responsavelmente? O programa que cumpro da minha vida realiza o autêntico bem? Serve para a salvação que Cristo e a Igreja querem para nós? Se é um estudante ou uma estudante, um filho ou uma filha, quem hoje me escuta, que contemple a essa luz os seus deveres de estudo, as leituras, os interesses, as diversões, o ambiente dos amigos e das amigas. Se é um pai ou uma mãe de família quem me ouve, pense por um momento nos seus deveres conjugais e de pai ou mãe. Se é um ministro ou um estadista, olhe para o conjunto dos seus deveres e responsabilidades: busca o verdadeiro bem da sociedade, da nação, da humanidade, ou apenas interesses particulares e parciais? Se quem me escuta é um jornalista ou um publicitário, um homem que exerce influência sobre a opinião pública, reflita sobre o valor e a finalidade desta influência.

Pedir ao Espírito Santo o dom de conselho
6. Também eu que vos falo, eu, o Papa, o que devo fazer para atuar prudentemente? Vêm-me ao pensamento agora as cartas de Albino Luciani quando era patriarca de Veneza, a São Bernardo llustrissimi Signori (“Ilustríssimos Senhores”) de Albino Luciani, em que este escreve “cartas” a diversos personagens históricos e as suas “respostas” (N. do E.).>. Na sua resposta ao cardeal Luciani, o abade de Claraval, doutor da Igreja, recorda com muita ênfase que quem governa deve ser “prudente”. O que deve, pois, fazer o novo Papa para atuar prudentemente?
Não há duvida de que deve fazer muito neste sentido. Deve aprender sempre e meditar incessantemente sobre os problemas. Mas, além disso, o que pode fazer? Deve orar e procurar obter do Espírito Santo o dom de conselho. E todos os que quiserem que o novo Papa seja um Pastor prudente da Igreja, implorem o dom de conselho para ele e também para si próprios, confiando na especial intercessão da Mãe do Bom Conselho. Porque devemos desejar que todos os homens se comportem prudentemente e que aqueles que detêm o poder atuem com verdadeira prudência. Para que a Igreja – prudentemente, fortalecendo-se com os dons do Espírito Santo, e em particular com o dom de conselho –, participe eficazmente deste grande caminho rumo ao bem de todos e mostre a cada um a via para a salvação eterna.
A VIRTUDE DA JUSTIÇA (8 de novembro de 1978)
1. Nestas primeiras audiências em que tenho a felicidade de encontrar-me convosco que vindes de Roma, da Itália e de tantos outros países, desejo continuar a desenvolver, como já disse no dia 25 de outubro, os temas programados pelo meu predecessor João Paulo I. Ele queria falar não somente das três virtudes teologais – a fé, a esperança e a caridade –, mas também das quatro virtudes cardeais: prudência, justiça, fortaleza e temperança. Via nelas, em seu conjunto, como que as sete lâmpadas da vida cristã. Como Deus o chamou à eternidade, só teve ocasião de falar das três principais: a fé, a esperança e a caridade, que iluminam toda a vida do cristão. O seu indigno sucessor, ao encontrar-se convosco para refletir sobre as virtudes cardeais segundo o espírito do pranteado predecessor, quer de certo modo acender as outras lâmpadas junto ao seu túmulo.

A lição evangélica do Sermão da Montanha
2. Cabe-me hoje falar da justiça. E talvez seja conveniente que este seja o tema da primeira catequese do mês de novembro. Pois, com efeito, este mês nos leva a olhar para a vida de cada homem, e assim para a vida de toda a humanidade, com a perspectiva da justiça final.
Todos temos consciência, de certa forma, de que é impossível completar a medida plena da justiça neste mundo. As palavras tantas vezes ouvidas, “não há justiça neste mundo”, talvez sejam fruto de um simplismo demasiado fácil, mas há nelas um profundo princípio de verdade. A justiça, em certo sentido, é maior do que o homem, maior que as dimensões da sua vida terrena, maior do que a possibilidade de estabelecer nesta vida relações plenamente justas entre os homens, os ambientes, a sociedade e os grupos sociais, as nações, etc. Todo o homem vive e morre com uma certa sensação da insaciabilidade da justiça, porque o mundo não é capaz de satisfazer até o fundo um ser criado a imagem e semelhança de Deus, nem no mais íntimo da pessoa nem nos diversos aspectos da vida humana. Assim, através desta fome de justiça, o homem abre-se a Deus, que é “a própria justiça”. Jesus, no Sermão da Montanha, disse-o de forma clara e concisa com as seguintes palavras: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados (Mt 5, 6).

Os direitos do homem
3. Mantendo diante dos olhos este sentido evangélico da justiça, devemos considerá-la ao mesmo tempo como uma dimensão fundamental da vida humana na terra: da vida do homem, da sociedade, da humanidade. Esta é a dimensão ética. A justiça é o princípio fundamental de existência e coexistência dos homens, bem como das comunidades humanas, das sociedades e dos povos. Além do mais, a justiça é o princípio da existência da Igreja enquanto Povo de Deus, e o princípio de coexistência entre a Igreja e as várias estruturas sociais, em particular o Estado e as Organizações Internacionais. Neste terreno extenso e diferenciado, o homem e a humanidade procuram continuamente a justiça: este é um processo perene e uma tarefa de suma importância.
Ao longo dos séculos, a justiça recebeu definições cada vez mais apropriadas segundo as suas diversas relações e aspectos. Daí vêm os conceitos de justiça comutativa, distributiva, legal e social. Tudo isto testemunha como a justiça tem um significado fundamental na ordem moral entre os homens, nas relações sociais e internacionais. Pode-se dizer que o próprio sentido da existência humana sobre a terra está vinculado à justiça. Definir corretamente o que todos “devem” a cada um e cada um deve a todos, definir “o que é devido” (debitum) ao homem da parte do homem nos diferentes sistemas e relações, definir estas coisas e, sobretudo, levá-las a cabo!, é algo de grande, que permite a cada homem viver e faz com que a sua vida tenha sentido.
Por isso, através dos séculos de existência humana sobre a terra, tem havido um esforço contínuo e uma luta constante por organizar com justiça os vários aspectos que compõem o conjunto da vida social. É preciso fitar com respeito as múltiplas propostas e a atividade, às vezes reformadora, das distintas tendências e sistemas.
Ao mesmo tempo, temos de ter em conta de que o que está em jogo não são sobretudo os sistemas, mas a justiça e o homem. O homem não pode ser para o sistema, mas o sistema para o homem. Assim, é preciso defender-se da fossilização do sistema. Estou pensando nos sistemas sociais, econômicos, políticos e culturais que devem prestar atenção ao homem e ao seu bem integral, ser capazes de reformar-se a si mesmos e de reformar as próprias estruturas segundo as exigências da verdade total sobre o homem.
A esse respeito é preciso valorizar o grande esforço que tem sido feito nos nossos tempos para a consolidação dos “direitos do homem”, dos povos e dos Estados. A Igreja do nosso século continua a dialogar incessantemente em todas as frentes do mundo contemporâneo, como o atestam as muitas encíclicas dos Papas e a doutrina do Concílio Vaticano II. O atual Papa certamente terá de voltar mais de uma vez a tratar destes temas. Na exposição de hoje, é preciso limitar-se apenas a mencionar este terreno amplo e variado.

O mandamento cristão do amor
4. Por isso, é necessário que cada um de nós possa viver num contexto de justiça e, mais ainda, que cada um seja justo e atue com justiça e respeito com relação aos que estão próximos e aos que estão distantes, à comunidade, à sociedade de que faz parte, e a Deus. A justiça possui muitas implicações e muitas formas. Há também uma forma de justiça que se refere àquilo que o homem “deve” a Deus. É um tema fundamental, por si só já vasto. Não posso agora fazer mais do que apontá-lo.
Detenhamo-nos agora nos homens. Cristo deu-nos o mandamento do amor ao próximo. Este mandamento compreende tudo aquilo que se refere à justiça. Não pode existir amor sem justiça. O amor “ultrapassa” a justiça, mas ao mesmo tempo encontra a sua verificação na justiça. Até o pai e a mãe, ao amar o filho, devem ser justos com ele. Se a justiça cambaleia, também o amor corre perigo.
Ser justo significa dar a cada um o que lhe é devido. Isto diz respeito aos bens temporais de natureza material. O melhor exemplo disso que podemos dar é a retribuição do trabalho ou o chamado direito ao fruto do próprio trabalho e da própria terra. Mas também se deve ao homem a reputação, o respeito, a consideração e a fama que merece. Quanto mais conhecemos o homem, tanto mais se nos revela a sua personalidade, a sua inteligência e o seu coração. E tanto mais tomamos consciência – e devemos tomar consciência! – do critério com que devemos “medi-lo” e o que significa ser justos com ele.
Por tudo isso é necessário aprofundar continuamente no conhecimento da justiça. Não é uma ciência teórica; é uma virtude, é uma capacidade do espírito humano, da vontade humana e também do coração. Aliás, é necessário orar para sermos justos e sabermos ser justos.
Não nos podemos esquecer das palavras de Nosso Senhor: Com a medida com que medirdes, também vós sereis medidos (Mt 7, 2).
Homem justo, homem que “mede justamente”. Oxalá o sejamos todos nós! Que todos nos esforcemos constantemente por sê-lo! Minha benção a todos.
A VIRTUDE DA FORTALEZA (15 de novembro de 1978)
Recordando João Paulo I
No dia seguinte à sua eleição, o Papa João Paulo I, falando do balcão da Basílica de São Pedro, recordou, entre outras coisas, que no conclave do dia 26 de agosto, quando já estava claro que seria ele o eleito, os cardeais ao seu lado sussurraram-lhe ao ouvido: “Ânimo!” Provavelmente era esta a palavra de que precisava naquele momento, e ela ficou-lhe gravada no coração, uma vez que a recordou logo no dia seguinte.
João Paulo I há de me perdoar se utilizo agora esta sua confidência. Creio que é a melhor forma de nos introduzir no tema que me proponho desenvolver. Com efeito, desejo falar hoje da terceira virtude cardeal: a fortaleza. Referimo-nos a esta virtude concreta quando queremos exortar alguém a ter coragem, como fez o cardeal ao lado de João Paulo I ao dizer-lhe: “Ânimo!”

Homens e mulheres fortes
Quem é para nós o homem forte, o homem valente? Normalmente, esta palavra evoca o soldado que, em tempo de guerra, defende a pátria arriscando a sua integridade física e até a sua vida. Entretanto, percebemos que a fortaleza é necessária também no tempo de paz. Por isso estimamos as pessoas que se distinguem pelo que se chama “coragem cívica”. Também nos dão um testemunho de fortaleza aqueles que expõem a própria vida para salvar uma pessoa que se está afogando ou acodem às calamidades naturais: incêndios, enchentes, etc. São Carlos, meu padroeiro, certamente distinguia-se por esta virtude. Durante a epidemia da peste em Milão, ele continuou a exercer seu ministério pastoral entre os habitantes da cidade. Admiramos também os homens que atingem o topo do Everest ou os astronautas, como aqueles que pisaram na lua pela primeira vez.
Como podemos notar, são abundantes as manifestações da virtude da fortaleza. Algumas são muito conhecidas e gozam de certa fama; outras são ignoradas, embora freqüentemente exijam mais virtude que as primeiras. Como já dissemos no começo, a fortaleza é, de fato, uma virtude, uma virtude cardeal. Permiti-me chamar vossa atenção para alguns exemplos pouco conhecidos, mas que são testemunhos de grande virtude, muitas vezes heróica. Penso, por exemplo, numa mulher, já mãe de família numerosa, a quem muitos “aconselham” a eliminação da nova vida concebida no seu seio através de uma “operação” para interromper a gravidez; e ela responde com firmeza: “Não!” Com certeza, ela conhece todas as dificuldades que esse “não” lhe trará: dificuldades para ela, dificuldades para o seu marido, dificuldades para toda a família; ainda assim, responde “não”. A nova vida humana concebida nela é algo de muito grande, de muito “sacro” para que ceda a semelhantes pressões.
Outro exemplo: um homem a quem prometem a liberdade e até uma boa carreira com a condição de que renegue os seus princípios ou aprove algo que fere sua honradez ante os demais. E também ele responde “não”, apesar das ameaças de uma parte e dos atrativos da outra. Eis um homem valente!
Muitas, muitíssimas são as manifestações da fortaleza, com freqüência heróica, das quais os jornais não nos falam e pouco sabemos. Só a consciência de cada um as conhece..., mas Deus as vê!

Superar a fraqueza humana e o medo
Desejo homenagear todos estes valentes desconhecidos, todos os que têm a coragem de dizer “não” ou “sim” quando custa! Homens que dão um testemunho singular de dignidade humana e humanidade profunda. Justamente por serem desconhecidos, merecem uma homenagem e um reconhecimento especiais.
De acordo com São Tomás, a virtude da fortaleza encontra-se no homem:
– disposto a aggredi pericula, a enfrentar os perigos;
 – disposto a sustinere mala, ou seja, a suportar as adversidades por uma causa justa, pela verdade, pela justiça, etc.
A virtude da fortaleza exige sempre uma certa superação da debilidade humana e, sobretudo, do medo. Porque o homem, por natureza, teme o perigo, os desgostos e os sofrimentos. Por isso, encontraremos homens valentes não apenas nos campos de batalha, mas também nos quartos e leitos hospitalares. Era freqüente haver homens assim nos campos de concentração e nos de refugiados. Eram autênticos heróis.
O medo às vezes tira a coragem cívica dos homens que vivem num clima de ameaça, opressão ou perseguição. Assim, pois, têm especial valentia os homens capazes de ultrapassar a chamada barreira do medo, a fim de dar testemunho da verdade e da justiça. Para chegar a essa fortaleza, o homem deve em certo sentido superar os próprios limites e superar-se a si mesmo, correndo o risco de ser ignorado, o risco de ser mal visto, o risco de sofrer conseqüências desagradáveis, injúrias, degradações, perdas materiais e talvez até prisão e perseguições. Assim, esse homem deve estar sustentado por um grande amor à verdade e ao bem ao qual se entrega. A virtude da fortaleza caminha passo a passo com a capacidade de sacrifício.
Já os antigos haviam definido bem o seu perfil; com Cristo, ela adquiriu contornos evangélicos, cristãos. O Evangelho dirige-se a homens fracos, pobres, mansos e humildes, pacíficos, misericordiosos; ao mesmo tempo, traz consigo um constante chamado à fortaleza. Repete com freqüência: Não tenhais medo (Mt 14, 27). Ensina que é necessário saber “dar a vida” (cfr. Jo 15, 13) por uma causa justa, pela verdade, pela justiça.

O exemplo de Santo Estanislau de Kostka
Desejo referir-me também a outro exemplo que nos vem de há quatrocentos anos, mas que continua sempre vivo e atual. Trata-se da figura de Santo Estanislau de Kotska, padroeiro da juventude, cujo túmulo se encontra na igreja de Santo André al Quirinale de Roma. Com efeito, aqui encerrou a sua vida, aos dezoito anos de idade, este santo, de natureza muito sensível e frágil, e que contudo foi bem valente. A ele, que procedia de uma família nobre, a fortaleza levou-o a escolher a pobreza, seguindo o exemplo de Cristo, e a pôr-se exclusivamente a serviço dEle. Apesar da forte oposição encontrada no seu ambiente, conseguiu realizar com grande amor e firmeza o seu propósito, compreendido no lema Ad maiora natus sum, “Nasci para coisas maiores”. Chegou até o noviciado dos jesuítas percorrendo a pé o caminho de Viena a Roma, fugindo dos que procuravam dissuadir o “obstinado” jovem das suas idéias.
Sei que durante o mês de novembro muitos jovens de toda Roma, principalmente estudantes, alunos e noviços, visitam o túmulo de Santo na igreja de Santo André. Uno-me a eles porque a nossa geração também tem necessidade de homens que saibam repetir com santa obstinação: Ad maiora natus sum. Precisamos de homens fortes!
Precisamos da fortaleza para ser homens. Com efeito, só é homem verdadeiramente prudente aquele que possui a virtude da fortaleza; do mesmo modo que só é homem verdadeiramente justo aquele que possui a virtude da fortaleza.
Peçamos ao Espírito Santo o “dom da fortaleza”. Quando o homem não tem forças para superar-se a si mesmo por valores superiores como a verdade, a justiça, a vocação, a fidelidade conjugal, é necessário que este “dom do alto” nos faça fortes a cada um de nós e que, no momento oportuno, nos diga no íntimo: Ânimo!
A VIRTUDE DA TEMPERANÇA (22 de novembro de 1978)
Lembrando o Papa Luciani

1. Tenho procurado cumprir nas audiências do meu ministério pontifício o testamento do meu estimado predecessor João Paulo I. Como se sabe, ele não deixou um testamento escrito, porque a morte lhe sobreveio de maneira inesperada e repentina, mas deixou alguns apontamentos que mostram o seu desejo de falar, nos primeiros encontros de quarta-feira, sobre os princípios fundamentais da vida cristã, ou seja, das três virtudes teologais – e isto, ele teve tempo de fazê-lo –, e depois sobre as quatro virtudes cardeais – e isto, o seu indigno sucessor o está fazendo –. Hoje é a vez de falarmos da quarta virtude cardeal, a temperança, com o que chegamos de certa forma ao fim do programa de João Paulo I.

Ser moderados ou sóbrios
2. Quando falamos das virtudes – não só das cardeais, mas de todas ou de cada uma delas –, sempre devemos ter diante dos olhos o homem real, o homem concreto. A virtude não é algo abstrato, afastado da vida; antes pelo contrário, tem “raízes” profundas na própria vida, brota dela e configura-a. A virtude incide na vida do homem, nas suas ações e no seu comportamento. Donde se deduz que, em todas estas nossas reflexões, não falamos tanto da virtude quanto do homem que vive e atua virtuosamente; falamos do homem prudente, justo, valente e, por fim, hoje precisamente, falamos do homem temperado (ou também sóbrio).
Acrescentamos a seguir que todos esses atributos, ou melhor, essas atitudes do homem provêm de cada uma das virtudes cardeais e estão relacionadas entre si. Assim, não se pode ser verdadeiramente prudente, nem autenticamente justo, nem realmente forte, quando não se possui a virtude da temperança. Podemos dizer que esta virtude condiciona indiretamente todas as outras; porém, também devemos dizer que todas as outras virtudes são indispensáveis para que o homem possa ser moderado (ou sóbrio).

O domínio de si
3. O próprio termo “temperança” parece referir-se de certo modo a algo “fora do homem”. Com efeito, chamamos temperado aquele que não abusa da comida, da bebida ou dos prazeres; aquele que não toma bebidas alcoólicas em demasia, que não aliena a própria consciência com entorpecentes, etc. Contudo, esta referência a elementos externos ao homem tem a sua base dentro do homem. É como se em cada um de nós existisse um “eu superior” e um “eu inferior”. O nosso “eu inferior” expressaria o nosso corpo e tudo o que lhe diz respeito: paixões, desejos, necessidades, sobretudo as de natureza sensual. A virtude da temperança garante em cada homem o domínio do “eu superior” sobre o “eu inferior”. Supõe tal virtude a humilhação do nosso corpo? Ou quiçá leve ao desprezo do mesmo? Pelo contrário, este domínio dá mais valor ao corpo. A virtude da temperança faz com que o corpo e os sentidos ocupem o posto exato que lhes cabe no nosso ser-homens.
Moderado é o homem que é dono de si. Aquele em que as paixões não predominam sobre a razão, a vontade e até o coração. O homem que sabe dominar-se a si próprio! Assim percebemos facilmente o valor fundamental e radical da temperança. Ela é nada menos que indispensável para que o homem seja plenamente homem. Basta ver alguém que se tornou uma “vítima” das paixões que o arrastam, que renunciou ao uso da razão (como, por exemplo, um drogado ou um alcoólatra), para comprovarmos claramente que “ser homem” quer dizer respeitar a própria dignidade e, por esse e outros motivos, deixar-se guiar pela virtude da temperança.

O exemplo de Jesus
4. Esta virtude também é chamada de sobriedade. E, realmente, convém muito que o seja! Pois, com efeito, para poder dominar as próprias paixões – a concupiscência da carne, as explosões da sensualidade (por exemplo, nas relações com o outro sexo), etc. – não devemos ultrapassar o justo limite entre nós mesmos e o nosso “eu inferior”. Se não respeitamos este justo limite, não seremos capazes de dominar-nos.
Isto não quer dizer que o homem virtuoso, sóbrio, não possa ser “espontâneo”, nem possa alegrar-se, chorar, expressar os próprios sentimentos; isto é, não significa que deva fazer-se insensível, como se fosse de gelo ou de pedra. Não! De forma alguma! Basta olhar a Jesus para nos convencermos disso. A moral cristã jamais se identificou com a estóica. Pelo contrário, considerando toda a riqueza de afetos e a emotividade de que estão dotados os seres humanos – se bem que homens e mulheres de modo distinto, dada a sensibilidade de cada um –, temos de reconhecer que o homem não pode alcançar esta espontaneidade madura se não através do domínio sobre si mesmo e de uma vigilância particular sobre todo o seu comportamento. Nisto consiste, portanto, a virtude da temperança, da sobriedade.

A beleza interior do homem e da mulher
5. Penso também que esta virtude exige de cada um de nós uma humildade específica com relação aos dons que Deus pôs na nossa natureza humana. Eu diria que há uma humildade de corpo e uma humildade de coração. Esta humildade é condição imprescindível para a harmonia interior do homem, para a beleza “interior” do homem. Reflitamos bem sobre tudo isso, em particular os jovens e, mais ainda, os jovens na idade em que se põe tanto esforço em se embelezarem para agradar aos outros. Recordemo-nos de que o homem deve ser principalmente belo por dentro. Sem esta beleza, todos os esforços dirigidos apenas ao corpo não farão nem dele, nem dela, uma pessoa verdadeiramente bela.
Por outro lado, não é precisamente o corpo que sofre prejuízos sensíveis e, não raro, graves para a saúde, se falta ao homem a virtude da temperança, da sobriedade? As estatísticas e as fichas médicas de todos os hospitais do mundo poderiam dizer muito a esse respeito. Também têm grande experiência nisso os médicos que atendem esposos, namorados e jovens. É verdade que não podemos julgar a virtude baseando-nos apenas nos critérios da saúde psicofísica; entretanto, há provas abundantes de que a falta da virtude da temperança prejudica a saúde.

O testamento de João Paulo I
6. Devo parar por aqui, embora esteja convencido de que o tema fica interrompido, mais do que esgotado. Em todo caso, algum dia talvez se apresente a ocasião de voltarmos a ele.

Por enquanto é suficiente
Deste modo, tratei de cumprir o melhor que pude o testamento de João Paulo I. Peço a ele que reze por mim quando tiver de passar a outros temas nas audiências das quartas-feiras.
22.XI.1978

Por São João Paulo II - http://www.quadrante.com.br/
Edição para o Blog da Província: Frei Ricardo, OAR
Fonte: ACI Digital (Tradução: Quadrante)


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